Reflexões a partir da minha singela evolução como escritor

Liev Tolstói, por Sergei Prokudin-Gorski

Comecei a escrever seriamente há dois anos. Não sou um nome conhecido, não tenho sequer um livro publicado e nunca ganhei um centavo com isso — em resumo, não tenho autoridade nenhuma para dizer o que pretendo dizer. Porém vou dizer mesmo assim, porque, se a escrita é uma jornada de progressão linear, da mesma forma que tem muita gente na minha frente, tem tantos outros só começando. A esses talvez interessem meus conselhos, mesmo que eu não passe de alguém muito, muito interessado no assunto.

Nenhum livro no mundo pode tornar alguém um escritor. A escrita é como qualquer…


Crônica

Foto por Matthew Henry, obtida no Unsplash.

Eu voltava do trabalho quando vi a moça das bolhas pela primeira vez; estava sentado à janela, olhando distraído para o mundo exterior, quando alguém sentou do meu lado.

“Licença”, disse uma voz feminina.

“Toda”, respondi, e me virei para sorrir. Mas não foi isso que aconteceu; quando vi a dona da voz, não fui capaz de disfarçar meu espanto: era uma moça jovem, mas com a pele crivada de pequenas bolhas enormes, como que prestes a explodir. E se aquilo fosse contagioso? Preferi não arriscar. Passei o resto da viagem encolhido contra a janela, segurando a respiração. Com a…


Fábula

Em determinado cruzamento, todo dia por volta de certo horário centenas de pombas se empoleiravam nos fios elétricos que cobriam o céu, esperando aparecer uma velha com um gordo pão italiano debaixo do braço. Então as pombas desciam para a calçada, se amontoando em torno da velha, que arrancava nacos do pão e jogava para alimentá-las.

Eventualmente a velha morreu, deixando de aparecer no cruzamento. Mas as pombas continuavam se empoleirando nos fios àquele horário, procurando com seus olhos famintos algum sinal dela.

Um dia naquele horário uma mãe passou por aquele cruzamento, empurrando um carrinho de bebê. O filho…


Crônica

Foto por Victor Rodríguez Iglesias, obtida no Unsplash

Se aproximava o meio-dia quando a muito custo saí da cama, só para deparar com uma geladeira vazia. Após imprecar ofensas contra a máquina sem vida, decidi tomar café da manhã na padaria, para não ter de lidar, além do coração combalido, com uma barriga vazia.

Eu me dirigia até a padaria da rua de trás, um lugar que nem nome tinha, onde eu costumava comprar pães borrachudos, mas mudei minha rota no meio do caminho. Decidi me regalar um pequeno agrado, comendo na Vó Augusta, uma padaria chique da qual eu só conhecia a fachada. Uma vez na vida…


Fábula

Foto por Liz Weddow, obtida no Unsplash (adaptada)

O centroavante de um time de várzea era sempre escarnecido por seus colegas, por causa da aparência de suas chuteiras: um pé tinha a sola remendada com fita adesiva, o outro era furado no dedão, e os dois eram tão sujos e esgarçados que não dava para saber nem qual era a cor original deles nem de qual marca eles eram. Cansado disso, o centroavante comprou um par novo, idêntico a como o par velho era há oito anos, quando começara a usá-lo.

Confiante de que as chuteiras novas lhe garantiriam um melhor desempenho, o centroavante decidiu estreá-las em um…


Como surgiu a coletânea e um pouco do nosso processo criativo

Inicialmente, a página Notícias de um tempo ausente foi concebida como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de três estudantes de jornalismo — eu, Elisa Dias e Giovana Valadares. Optamos por este formato porque, embora desejássemos ardentemente ter em formato físico a coletânea que escrevemos com tanto carinho, percebemos que o importante mesmo era divulgar nosso trabalho, e que aqui teríamos, além da facilidade, a liberdade de preservar a integridade dos textos.

SOBRE A COLETÂNEA

Em formatos que variam entre o jornalístico e o literário, entre o factual e o ficcional, as crônicas de Notícias de um tempo ausente abordam o fenômeno da…


Crônica

Ilustração por Gleisson Cipriano

Quando criança ele era um terror. Tanto que sua própria mãe, dona Dalva, lhe apelidou de Peidinho: estava sempre metido em coisa que não cheirava. Eu poderia contar de quando ele acendeu um cigarro escondido debaixo da cama, quase pondo a casa em chamas, ou quando ele espiou por sob a saia de uma visita e anunciou a todos no recinto que ela estava sem calcinha (a moça, escandalizada, jurou nunca mais pisar naquela casa), ou das manhãs dominicais que ele passava jogando pelada, em vez de comparecer à missa, como dona Dalva cria que ele fazia. A lista vai…


Nebulosa Carina — imagem da NASA, obtida pelo Telescópio Espacial Hubble

Crônica

Aconteceu quando eu lia um livro, estirado no sofá de casa. Não importa qual livro. De repente tiro os olhos da página e minha vista voa planeta afora, escapando da atmosfera, e percorre o sistema solar, então a via láctea, e atravessa todo o conjunto de galáxias conhecidas. E, quando dou por mim, estou de volta no meu sofá, na cidade de São Paulo. Tudo em menos de um segundo.

O que mais intrigou, porém, é que assim que cheguei na borda do universo conhecido percebi que havia ainda muito mais, que talvez não tivesse chegado nem na metade do…


A translation of the short story “Um apólogo”

Needle and Thread, from www.photos-public-domain.com

Once upon a time there was a sewing needle, who said to a roll of thread:

— Why do you have this air, all full of yourself, all rolled up, pretending to value something in this world?

— Leave me, lady.

— Do you want me to leave you? Leave you, why? Because I tell you you have an unbearable air? I ratify that you do, and I will always say whatever comes to my head.

— What head, lady? You are not a pin; you are a needle. Needles have no head. What’s your problem with my air? Each…


Reflexões sobre a dúvida milenar entre as aspas e o travessão

Além das traduções que aqui publico, eu também escrevo uns contos, que aliás jamais verão a luz do dia. Sendo eu brasileiro de nascença e criação e vivência, a esmagadora maioria dos livros que li usa o travessão para marcar diálogos, e por isso nunca hesitei em reproduzir essa convenção em meus próprios textos. Também já li livros que não usam marcação alguma, como o Barba Ensopada de Sangue, do Daniel Galera, e livros que se valem de formas completamente inusitadas de se escrever diálogos, como os romances do José Saramago. …

B. A. Ferreira

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